Quase sem querer.

quarta-feira, setembro 07, 2011 8 Comments


 Andar sozinha pelas ruas do Bairro do Recife era coisa que ela gostava de fazer, lhe dava tempo para pensar na vida, nela mesma e no cachorro maltratado que também seguia pela rua mal iluminada.
Era noite e entre construções de outro século, entre as cores que ganhavam um ar ainda mais encantador naquela meia luz do poste, ela o encontrou. Na verdade, o reencontrou. Quando ela o conheceu, ainda eram meninos, crianças que corriam de um lado a outro brincando com amigos imaginários. Foram amigos desde que se conheceram e por mais que o tempo tivesse passado e eles tivessem crescido, não haviam se tornado estranhos.
Ela parou a alguns passos dele, numa distância considerável, distância suficiente para que se pudessem mirar por inteiro e se reconhecer. Ele a encarou, parecia não acreditar no que via, tudo era tão mágico. Ela sorriu. Ficaram assim uns instantes, guardando cada detalhe de um encontro tão adiado e finalmente consumado.
Conversaram, abraçaram-se, pequenos beijos e toques e certos carinhos tornaram-se pequenos segredos.
Colocaram em dia as novidades dos últimos dois anos. Impressionaram-se de como a vida podia mudar tanto em pouco tempo; relacionamentos acabaram-se, o sofrimento ainda presente na face dele, na face dela, a vontade de fazer alguma coisa pelo melhor amigo, tentar animá-lo. Impressionaram-se também por verem que passe o tempo que passar, certas coisas permanecem as mesmas. Intocáveis.
-Sei lá. Você não devia se prender tanto no que aconteceu. Passou, passou. Eu acredito que as coisas são do jeito que tem que ser, se acabou é porque não era pra ser e pronto.Porque aí vem a vida e te dá melhores opções, de repente você vai conhecer alguém que te conhece, que não é só sua amiga, mas vai ser alguém muito mais especial, alguém que te completa, entende? Então não fica triste, eu tenho certeza que tem alguém aí fora que te completa.
-Eu acredito nisso também. –Disse desviando o olhar. Provalmente começou a pensar nas possibilidades. – E você?
-Eu o que?
-Encontrou alguém?
-Não sei. Talvez tenha encontrado, mas …
-Mas você pensa demais. –Ele completou com um meio sorriso. – Você precisa correr o risco… Quem sabe o que te vai acontecer se você não der uma chance a si mesma para que as coisas aconteçam?
-Eu quero encontrar alguém que valha a pena arriscar. Mesmo que dê errado. Mas quero que valha a pena, entende?
-Sei…
-Acho que ninguém me cativou de verdade… –Ela disse com simplicidade.
Eles se olharam em silêncio, trocando confidências e se aceitando e aceitando a si mesmos diante do outro. Foi naquele momento que ela percebeu que era ele quem ela queria. Queria tudo, queria estar, ficar do lado e só ficar, ficar por ficar. Ficar e fazer bem, ficar e sentir-se bem.
Entre tantas outras conversas sobre os mais variados assuntos, volta e meia ela pensava nele, ele diante dela, ele com ela.
Despediram-se, ele dizendo que queria encontrá-la de novo, ela assegurando-o de que se encontrariam novamente. Seguiram pela rua em sentidos opostos, encantada do jeito que era, resolveu passar o tempo na livraria. Ela era encantada por livros, e entre tantas e tantas prateleiras ela se perdia. Cada livro parecia chamar-lhe, convidava-a mergulhar em suas linhas e confrontar um novo mundo. Entre autores e suas obras, um em particular lhe chamou atenção: “O céu pode esperar”. Pegou o livro, sentou numa poltrona próxima e deu início a leitura. Entre escadas que iam para o céu, escadas que iam para a terra e para o inferno e escolhas que a mocinha tinha que fazer, ela leu as primeiras trinta páginas. Cansou-se, não porque o livro seja ruim, mas ela achou muito clichê e voou para as últimas páginas. Lá, como era de se esperar, o mocinho disse para a mocinha que a seguiria aonde quer que ela fosse, pois a amava.
Fechou o livro. As palavras do mocinho ecoavam dentro de sua cabeça como se tivessem sido ditas em alto e bom som.
“Aonde quer que você vá, eu vou com você”
Era isso que ela queria: alguém que a amasse de verdade, não importava como, quando e por que. E, mais uma vez, ela foi pega pensando nele e no ”e se…?”. Foi para casa, passando pelas pontes, olhando o rio e a paisagem que se movia lenta do lado de fora da janela. Pensava nele. Pensava muito neles.
O que ela não sabia e nem desconfiava era que ele pensava nela também. Também pensava muito neles.

Emma

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

8 comentários:

  1. Manu, adorei o blog...muito bom mesmo

    Abração
    Lucyano

    http://cinemaparceirodaeducacao.blogspot.com/

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  2. hehehe que fofo adorei...adoroooo um sofa!

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  3. Você tem um talento para escrever, concerteza o seu blog um lugar na minha barra de favoritos!

    Já estou seguindo aqui porque gostei, se gostar faça o mesmo. Estou te esperando lá no PM!

    Besos ,
    Paraíso de Menina

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  4. acabo de conhecer teu blog e já amei tudo por aqui...amei tanto que já virei seguidora, passa no meu blog e segue também Ok!

    Bjos te espero por lá!

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  5. Adorei! Muito bom. Parabéns, sério mesmo. Só merece elogio.

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  6. Olá,
    Parabéns pelo blog! Estou seguindo.
    Segue lá também..

    http://estanteseletiva.blogspot.com/

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  7. adorei, adorei, adorei demais estar aqui e te ler Manú, de forma reciproca a principio mas o prazer de estar aqui foi chegando e ficando e eu claro rsrsrr fui ficando e absorvendo teu escrever amei e coloquei em meus favoritos vai ser tipo um livro de cabeceira sabe...aqueles livros gostosos que a gente gosta de ter por perto?
    Pois é
    fica bem tá
    beijos de luz

    Rosane Silveira
    se der visite também meu blog de poesias

    www.rssilveira.blogspot.com

    Vida em Poemas

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