Brilha onde estiver,

segunda-feira, setembro 12, 2011 5 Comments

“Eu não sei... acho que essa minha ingenuidade, essa coisa de tentar ver o melhor nas coisas, de me alegrar quando as borboletas cruzam meu caminho, dançar sozinha na rua, cumprimentar as flores e achar que elas sorriem de volta pra mim... sei lá, essa coisa de existir pra mim mesma, e só pra mim, acho que é o que faz com que eu não me encaixe.” Ela disse como quem mais fala para si mesma do que para os outros. 
Os amigos a olharam, permaneceram em silêncio. Ninguém esperava uma resposta tão sincera num jogo banal de verdade e mentira. Alguns, no círculo, pareciam ter pensado que ela poderia ter mentido, pelo menos essa vez... não custava nada... era melhor do que causar aquele pequeno mal estar que faz pensar nas coisas.
Aparentemente, nenhum conseguiu nem ao menos amenizar a situação, dizer palavras como “o que é isso, Beca?! O que você anda dizendo?  É claro que você se encaixa! Não vês? É óbvio!”. E só agora penso que não disseram nada porque, de fato, não havia nada de óbvio.
Rebeca era uma menina que parecia comum, mas só parecia mesmo, porque quem a conhecia sabia que ela não se encaixava. Era verdade, mas ninguém gosta de verdades desse tipo.
Sim, sim... tinha muito amigos, mas de alguma forma, e até hoje ninguém sabe o por quê, ela estava sempre longe. Era como se quando a gente tentar agarrar aquela borboletinha que descansa sobre a flor vermelha do jardim: ela lá quietinha, você prendendo a respiração, fazendo pequenos movimentos, só pra chegar pertinho e conseguir capturar a borboletinha, prendendo suas asas com os dois dedos (o polegar e o indicador). Mas não adianta tanta precaução, sem notar você ou até mesmo notando – nunca se saberá – ela vai embora. Pousar em outra flor só para mudar, poder aproveitar todas as flores quantas lhes forem dadas.
Ela olhou em volta, viu todos os amigos ali divagando, alguns tentando encontrar as melhores palavras para consolá-la, outros apenas em silêncio,  outros apenas preocupados consigo mesmos, desejando, lá no íntimo, que fossem eles a não se encaixar.  Porque há uma grande vantagem em não se encaixar e só ela não conseguia perceber:  era o que a tornava tão especial e cuja companhia era sempre requisitada. É meio bobo, mas poucos nascem, de fato, para serem bobos. Essa ingenuidade, essa complexidade presa na simplicidade e leveza do ser, era quase místico. Era bonito, no fim das contas. E todos queriam isso.
Ela riu. Todos a olharam. “Gente, é sério. Só falei. Falei por falar.” Ela disse com a voz  baixa mas entusiasta.
“Eu cansei desse jogo.” Disse a gordinha que encostava sua cabeça debilmente na parede.
Alguns concordaram, disseram que já estava ficando tarde e era hora de dormir.
Rebeca se levantou e foi descansar na rede.
“Beca, eu sei que, às vezes, é difícil entender... mas você é ótima desse jeito.” Disse o amigo que a conhecia desde que ela era pequenininha.
Ela sorriu. Sabia que não adiantaria mentir, não para ele.
“Sinto falta de ser levada a sério. Porque eu posso ser bem normal também, você sabe...”
“O que é ser normal pra você, Beca?”
“Não ser tão como eu.”
“E perder toda a graça de ser você por causa dos outros?”
“É que às vezes me sinto só. Parece que não tem ninguém como eu aí afora...”
“É verdade.”
“E o que eu faço? O que a gente faz?”
“A gente aceita. E se ajeita do jeito que dá.”
“Assim?”
“Sim. Assim.”
Ela deu um longo suspiro.  Ele abriu espaço na rede e deitou-se junto a ela. Cuidadosamente, a abraçou, trazendo-a para mais perto de si.
“Você nunca vai estar sozinha, Beca... nunca.”
“Promete?”
“Eu prometo.”
Ela aceitou. E ficaram assim por alguns minutos. Ela com a cabeça deitada sobre o peito dele, ele com o braço envolta dela. Perfeita sincronia.
“Nossa! Olha a hora! Exatamente meia noite! Que sorte, Duque!”
Ele riu, sabia exatamente o que ela pensava.
“Você acha que tem alguém pensando em mim, Duque?”
“É melhor acreditar que sim, Beca.”  E beijou-lhe a fronte. 






                                  -x-
Ah! A quem interessar: intervenção ontem da palhaçoterapia foi um sucesso! Muitos narizes vermelhos pra todos vocês que passam por aqui!beijo beijo

Emma

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

5 comentários:

  1. Adorei o blog, achei de leveza incrível. A tirinha no topo, uma graça. O texto interessante e felizmente verdadeiro pq existem pessoas diferentes e é isso o que nos torna pessoas melhores. Parabéns pelo blog

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  2. "Pousar em outra flor só para mudar, poder aproveitar todas as flores quantas lhes forem dadas."

    Tenho paixão assumida por vento, e, estranhamente (ou não), o movimento dele me remete para borboletas. Então as acho uma metáfora incrivelmente bonita. Acho que gosto delas por isso. Por aproveitarem as horas de vida para conhecer mais néctar, mais cor, mais flor.

    ___

    Então, vi o comentário anterior e acho que nunca comentei sobre a tirinha no topo do blog, né? pois bem, que sensibilidade! Tenho essa mania de viajar, e, essa menina da tira tá mais pra borboleta do que pra menina...


    Estou apaixonado pela Rebeca, rs.

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  3. É a primeira vez que visito o seu blog... Não conhecia e, fuçando, acabei encontrando por acaso... Mas eu amei ele... vou passar por aqui sempre!
    Seguindo.... me segue também? Ah, e se não for pedir muito, deixa um comentário para que eu possa te agradecer e te visitar em outra oportunidade.
    Ficarei muito feliz se retribuir!
    http://paponalingua.blogspot.com/
    :)

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  4. vivemos num tempo que é cada vez mais difícil nos aceitarmos como somos. se mais pessoas levassem a frase do caetano mais a sério: "de perto, ninguém é normal".
    abraço

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